Virtudes e Vertigens do Virtual

Atualizado: 16 de Mai de 2019

...As redes sociais, com seu potencial de conectar mundos, hoje está limitada por um popurri de bolhas ideológicas e de interesse de pequenos grupos, comandadas pelos algoritmos. Ao que tudo indica, em parte estamos escolhendo permanecer em nossas bolhas mesmo com toda essa diversidade de mundos ao nosso alcance. O que nos faz permanecer escolhendo o mesmo?...

Tenho lembranças de um vício que embora atual, já se anunciava há duas décadas. Lembro da transição… quando ganhei meu primeiro celular, meu namorado aos poucos foi deixando de ligar para o telefone fixo de casa e passou a me ligar no celular tijolo Nokia, para depois se restringir a me mandar somente mensagens de texto. Hoje eu quase chego a duvidar que algum namorado (ficante,peguei) teria a coragem de ligar na casa da namorada correndo o risco de ser surpreendido primeiramente pela voz do pai: Alô! E meu namorado na época, embora mais baixo do que eu e bem mais baixo que meu pai, fazia isso com tanta bravura. Atitude encanta. A medida que a nossa comunicação foi sendo transferida para o celular e para as mensagens de texto, essa bravura também foi se dissipando. Eu pressentia que estava sendo abduzida por essa onda da modernidade líquida, então era melhor eu aprender a nadar.

Antes do celular se tornar uma extensão das minhas mãos eu lembro que eu esperava ele me ligar no telefone fixo na hora que eu chegasse em casa,depois da faculdade. Eu não sofria de ansiedade, ou se sofria era somente em um espaço curto de tempo entre o chegar em casa e a hora de dormir.

Com a chegada (ou melhor, intromissão) do celular, toda hora se tornou a hora para esperar meu namorado e os futuros namorados, (ficantes pegueis casinhos) a me ligar ou responder mensagens. Desde então eu passei a sofrer o efeito de estar olhando ininterrupitamente para o celular em busca de mensagens, em busca de respostas. O celular grudava nas minhas mãos na mesma medida que o Tempo escoava da palma delas.

Hoje, com os smartphones são infinitos os recursos e aplicativos disponíveis. Sair de casa sem celular é sair de casa pelado, desorientado e com tempo de sobra.

O celular, assim como os computadores são a porta física de entrada para o mundo virtual. Se do lado de fora da porta estou sozinha, quando a atravesso, estou conectada com milhares de pessoas, e o comportamento dessa rede virtual vem me chamando a atenção.

O comportamento em rede vem revelando muitos aspectos sobre a maneira como a sociedade vem se informando, compartilhando e atribuindo significados aos acontecimentos. O quanto de fato o comportamento das redes sociais tem influenciado os acontecimentos?

Se por um lado as redes sociais abrem espaço para a manifestação de uma variedade de causas e interesses, dando voz à grupos que até então se definhavam no anonimato; por outro lado cresce, simultaneamente, as manifestações de intolerância, radicalismo e conservadorismo. O crescimento da liberdade de expressão de alguns vem acompanhado do medo da perda de poder de outros; ou seja, ao mesmo tempo que se nota um movimento de expansão, percebe-se também um movimento de contração. Para cada afirmação há uma negação.

Logo que as redes sociais começaram a se difundir como parte da cultura contemporânea líquida as pessoas se limitavam a publicar fotos de viagens, família e eventos sociais. A medida que os usuários passaram a utilizar as redes sociais para se informar e compartilhar ideias sobre os acontecimentos de nosso tempo, esse fenômeno da polarização começou a se revelar e ao mesmo tempo iluminar sombras e pontos cegos do nosso comportamento humano/civilizatório. Um dos aspectos iluminados foi a nossa incapacidade de sustentar conversas e diálogos cujos os argumentos nem sempre concordamos. Optamos por interromper o diálogo ou então partir para insultos, desqualificando aqueles que pensam diferente de nós. Com esse tipo de comportamento, todo o horizonte de possiblidades que se apresenta para nós no mar das rede sociais se fecha imediatamente após começarmos a curtir somente aquilo que ressoa com nossas crenças e ideias. As redes sociais, com seu potencial de conectar mundos, hoje está limitada por um popurri de bolhas ideológicas e de interesse de pequenos grupos, comandadas pelos algoritmos. Ao que tudo indica, em parte estamos escolhendo permanecer em nossas bolhas mesmo com toda essa diversidade de mundos ao nosso alcance. O que nos faz permanecer escolhendo o mesmo? Seria a falta de profundidade com que nos engajamos com os acontecimentos através das redes sociais?

No último mês as pessoas “enfeitaram” as fotos de seus perfis algumas vezes em defesa de causas: SOS Amazônia, contra Homofobia, Escola Laica, Pelos Guaranis, entre outros, que devido a efemeridade dos acontecimentos não consigo me recordar. Se por um lado me comovo com o engajamento e sensibilização de tantas pessoas com causas que considero nobres e de extrema relevância, por outro lado a rapidez com a qual nos engajamos e nos desengajamos também me faz pensar no tipo de mobilização e participação social que estamos criando. Seria essa mobilização suficiente para promover mudanças estruturais em nossa sociedade? Em que medida essa qualidade efêmera dos nossos engajamentos está de fato contribuindo para esse importante momento de transição?

E você o que pensa disso?


Por Juliana Cortez


Foto: Alberto Lefévre


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