Vulnerabilidade e a Medicina do Palhaço

Atualizado: Abr 20



Amanhece, o sol vem subindo iluminando ainda timidamente as árvores e montanhas do lugar onde vivo, e então mais um dia normal se inicia.


Desperto, medito, e sigo para meus afazeres. Subitamente, um pequeno desentendimento em casa, fruto, como quase sempre, de comunicação equivocada, mexe com meu humor. A manhã já não está mais tão “normal”. Ao começar o trabalho com outras pessoas, uma outra situação altera a rotina. A maioria das pessoas envolvidas fica desconfortável, e assim o clima muda, com uma tensão no ar. O dia já ficou estranho.


Porque temos tanta dificuldade com o imprevisto? Porque situações que nos tiram da zona de conforto, da rotina, nos afetam tanto?


Sabemos que somos frutos de nossos hábitos, e estamos inseridos em uma realidade sócio cultural que estimula uma vida linear, repleta de padrões. Tudo bem, padrões fazem parte, existem coisas na nossa existência que requerem disciplina e linearidade. Além do mais, buscamos segurança, zelamos por nosso bem-estar e queremos e merecemos viver uma vida tranquila. É justo e, por instinto, digno.


Mas, não estamos, ou melhor, não nos esquecemos com muita frequência, que a vulnerabilidade é uma premissa da vida?


Recomecemos do início: o que é um dia “normal”? Normal não seria estarmos abertos para o que nos acontece, ter disponibilidade total para as situações com as quais nos deparamos, com tranquilidade e presença?


Diferentes caminhos espirituais e escolas de conhecimento tem suas contribuições para essa reflexão, bem como muita coisa que temos lido e ouvido, assim como a própria vida, que com frequência, senão a todo momento, nos pede essa postura de atenção plena e presença. Mas, apesar de tudo isso, o quanto conseguimos manter esse estado de receptividade e equilíbrio?


Essa pergunta talvez tenha múltiplas respostas pois somos diferentes, temos caminhadas biográficas e psicológicas, desafios, características e contextos distintos, e não é a intenção aqui se debruçar sobre sua resposta. A perspectiva que proponho, então, é olhar a vulnerabilidade através do olhar do palhaço. Isso mesmo, do palhaço!

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Como disse, a vulnerabilidade é uma premissa da vida. Somos, por natureza, vulneráveis. Muita coisa pode acontecer em nossa caminhada que tende a nos desestabilizar, tirar nosso centro, mudar o rumo das coisas, de pequenos a grandes acontecimentos. Não precisamos ir longe para, numa reflexão até ordinária mas profunda afinal, lembrarmos que nascemos e passamos a vida com a única certeza que é a finitude, morrer, e que “chegamos sem nada e vamos embora sem nada” dessa jornada. Em nossa caminhada de errância, ou seja, sem destino claro pois a vida é por si só imprevisível, vivemos e perdemos com frequência, achando que estamos no controle, mas não temos controle sobre praticamente nada.


Soa desanimador e até trágico, não? Mas é aí que mora uma grande e profunda compreensão, um truque paradoxal mas que pode nos ajudar cirurgicamente no acolhimento de nossa vulnerabilidade, e até sua inversão para impulsionar nosso empoderamento e coragem, e esse truque vem da medicina do palhaço – a representação de seu arquétipo, suas qualidades abstratas, sua contribuição para a psiquê e para a manutenção da própria sociedade.


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A figura do palhaço, comumente vista hoje em dia como personagem de entretenimento, carrega profundos símbolos da consciência humana e tem um lastro histórico associado à organização, manutenção e saúde física e mental de indivíduos e de sociedades.


Desde os tempos antigos e em diferentes culturas do planeta, como nas tribos indígenas norte-americanas onde era conhecido como heyoka (nome Lakota), existe a figura do palhaço - seu papel era fundamental na comunidade pois alegrava, curava males do corpo e do espírito (como um xamã) e ensinava moral e ética (através do contrário). No Brasil, por exemplo, ainda hoje, existem os hotxuás, palhaços que cumprem seu papel social nas aldeias Krahôs da região de Tocantins – são os chamados “palhaços sagrados”.


Exatamente por espelhar as imperfeições e contradições humanas, ter em sua vestimenta e jeito características estranhas e inadequadas e questionar em certo grau a ordem e a autoridade (no seu aspecto bufão) é que o palhaço causa risos e desconfortos nas pessoas. Traz à tona arquétipos da nossa consciência, como o juiz e a vítima: perceba todas as duplas cômicas como Tom e Jerry e o Gordo e o Magro, além de que podemos perceber esses dois “papéis” dentro de nós mesmos e como isso reflete a maneira como atuamos no mundo e nas relações.

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Pois bem, nos sintonizando com essa força ou “medicina” que o palhaço sagrado traz, conseguimos muitas vezes mudar a lente com que vemos os acontecimentos que nos afetam e, principalmente, a nós mesmos com nossas reações, muitas vezes dramáticas.


Imaginemos: algumas situações que passamos em nossas relações pessoais e profissionais, por exemplo, a forma como reagimos a elas, se adicionarmos intensidade, ludicidade, exagero, teremos incríveis esquetes de palhaço! Cenas de possessividade, ciúmes, orgulho, vitimismo... somos, de certa forma, ridículos e podemos rir disso!


E, aumentando o contraste do espectro de visão, mesmo situações mais delicadas podem ser abrandadas se tivermos essa capacidade de perceber, compreender profundamente que a vida e sua imprevisibilidade, vulnerabilidade é como um grande jogo e é a mente humana que dá acentos e tônicas que podem nos levar a mais sofrimento. Aqui, podemos até fazer um paralelo com a equanimidade, o seja, a capacidade de vivenciar as coisas sem apego, sem apegar-se ao desejo ou à aversão, mantendo um equilíbrio e senso de impermanência já que, seja lá o que for, em algum momento passará.


Podemos dizer, ousadamente, que até alguns dos grandes mestres da humanidade foram palhaços sagrados, usando dessa medicina para, inclusive, nos ensinar: Cristo questionou e zombou da ortodoxia; Buda zombou do ego e Gandhi zombou e questionou o dinheiro e o poder.


A perspectiva do palhaço visa realocar o olhar, mudar pontos de vista. Diz-se tradicionalmente nas culturas indígenas que ele vive entre o raio e o trovão, no intervalo entre o que já foi e o que ainda não começou, ou seja, em um espaço “mágico” entre o caos e a ordem, onde existe um universo rico em possibilidades. É o campo do imprevisto, onde podemos improvisar e nos adaptar bem se estivermos ancorados na presença.


Até nas organizações esse conceito está presente. Dee Hock, fundador e primeiro CEO da Visa International, criou o modelo caórdico: uma forma de entender sistemas de todos os tipos e como a variação ao longo do espectro do caos e da ordem influenciam os acontecimentos e os resultados. É o espaço entre o caos e a ordem, a intersecção. Disse Dee Hock: “Não há a menor dúvida em minha mente que caórdicos nós somos, caórdicos nós vamos permanecer, caórdico o mundo é, e caórdicas as nossas instituições tem que se tornar. É o caminho da vida desde o começo do tempo e o único caminho para um mundo sustentável nos séculos por vir, enquanto a vida continua a evoluir para uma sempre crescente complexidade.”

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Enfim, poderíamos aqui achar outras abordagens semelhantes que tocam o mesmo ponto de maneiras distintas, e obviamente para fortalecer e se apropriar mais internamente (e visceralmente), recomenda-se vivenciar alguma imersão nessa arte da palhaçaria dentro de uma abordagem séria que toca esse aspecto terapêutico e profundo da medicina do palhaço sagrado. De qualquer forma, aqui sugiro esse olhar, esse estudo e reflexão como caminho para melhor lidar com nossas vulnerabilidades. E para tal, termino esse artigo com algumas referências e inspirações de princípios básicos e qualidades abstratas do palhaço que, sendo trabalhados internamente, momento a momento, podem resultar em ganhos de qualidade de presença, atenção, percepção de si mesmo, do outro e do meio que estamos inseridos.


- Pensamento/sentimento no corpo: estado de presença, gesticulação e expressão corporal, percepção do eixo céu-terra percebendo os pés no chão, respiração, olhar, sentidos, trazendo assim maior qualidade de inteireza para o momento presente, saindo do fluxo ininterrupto e oras atordoante da mente e seus pensamentos;


- Olhar receptivo: estar aberto, flexível, aceitando o que as situações apresentam e buscando adaptar-se a elas ao invés de lutar contra. Dizendo SIM para a brincadeira, para o prazer e a diversão, para o jogo da vida;


- Qualidades abstratas do palhaço:

· Sinceridade;

· Não ter julgamentos;

· Generosidade;

· Pureza / Ingenuidade;

· Simplicidade;

· Ser a própria vulnerabilidade.


Da próxima vez que achar que o dia não está tão “normal”, buscarei me lembrar dessas coisas, ajustar meu olhar para essa ótica :o)


Que possamos, com essa medicina e nosso “palhaço interno”, ganhar mais confiança e leveza na nossa caminhada, aceitando-nos como somos, acolhendo nossa vulnerabilidade e, com consciência, gerando mais energia e coragem para nossas realizações e felicidade na vida!



Por Daniel Moray


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